Pensamentos Soltos: "Não existe falta na ausência"


Ontem, durante atendimento, a “cuidadora” de uma jovem partilhou comigo: “Sabe, a S. já não tem mãe” (…)
A conversa foi de manhã e durante todo o dia esta frase não me saiu do pensamento: "...já não 'TEM' mãe”.
Como é possível deixar de "TER" mãe? ...Não é.
Por não conseguir conceber a falta na ausência física de uma mãe, substituo sempre o "TER" por "ESTAR". 
Já não está comigo, mas continua a existir em mim e através de mim. Dou-lhe voz e dar-lhe-ei sempre.
É por a "TER" que eu sou. É por a "TER" que eu sou como sou.

Objetos deixam-se de “TER”. 
UMA MÃE  “TEM-SE PARA SEMPRE"

Frase do dia: "Por vezes, a solução está em intervir em contingências simples, 'nas pequenas coisas da vida'." [15]


Este fim-de-semana resolvi rever um dos meus filmes favoritos: "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". 
Um filme de rara sensibilidade e inteligência, atuações perfeitas e uma banda sonora maravilhosa (pode ouvir AQUI )
E, além de tudo isso, é uma verdadeira aula Behaviorista – “programação de contingências” (Amélie Poulain torna-se numa hábil programadora de contingências, intervindo nas condições da sua realidade envolvente e, com isso, mudando para melhor a vida daqueles que conhece).
Dúvidas? Continue a ler...
Logo no início do filme entendemos que o tema principal é a solidão (a verdadeira vilã contra a qual Amélie lutará)...





Amélie teve uma infância muito solitária. Ficou cedo sem mãe e foi educada em casa. Contou apenas com o pai, homem deprimido após a viuvez.






Aos 28 anos, decide ir morar sozinha  para os subúrbios de Paris, onde consegue um emprego num Café.
Vive uma vida privada de amigos, sem namorado, sem amor, contando apenas com um pai deprimido que mora longe.

Mas um dia algo inesperado ocorre. Por pura casualidade, Amélie encontra uma caixa que havia sido perdida há décadas por um menino. Trata-se de um verdadeiro tesouro da infância de alguém. Amélie resolve encontrar o dono, já um senhor, e devolve-lo.

E é isso que ela faz. Agindo como detetive, descobre o dono, chamado Bretodeau, e prepara uma situação extraordinária para lhe devolver o tesouro da sua infância sem que ele saiba quem o entregou.
Assim que vê o seu tesouro, o senhor Bretodeau, um homem de 50 anos, triste e solitário, recorda-se da sua infância feliz, o que o emociona:
Bretodeau decide que voltará a valorizar a vida. (Uma espantosa recuperação espontânea de
comportamentos já extintos relacionados com a procura da felicidade).

Amelie, satisfeita, entende que o que fez com Bretodeau foi apenas uma experiência-piloto. Ela decide fazer o mesmo com outras pessoas: ajudar a humanidade a ser mais feliz.


Ainda embalada pelo seu primeiro sucesso, faz uma segunda experiência, de baixo custo: ajuda um mendigo cego a chegar ao metro.
Porém ela faz mais do que isso: no caminho, descreve de forma poética o que se podia ver na rua, explicando o que estava a gerar os sons, os cheiros, as texturas que cego podia sentir. Quando é deixado no metro, o mendigo sentia-se em êxtase pela experiência sensorial que a jovem misteriosa lhe proporcionou!



Nessa altura, Amélie já entendeu que tem o poder de intervir nas contingências, alterando-as para ajudar as pessoas. 
Continua... 
Resolve aproximar dois solitários que conhecia de seu emprego no café.

Amélie inventa uma história... Diz ao Joseph ( que ama Gina, que não quer nada com Joseph) que Georgette (quarentona solitária e hipocondríaca que não ama ninguém) está apaixonada por ele. E diz o mesmo de Joseph à Georgette.
Resultado: após alguns truques de Amélie, ambos acabam por se apaixonar mesmo e começam uma relação intensa, que os tira da solidão e os leva à felicidade a dois. 

Agora é a vez de Amélie ajudar outra pessoa: Hipolito, um escritor frustrado, sem sucessos editoriais.
Como Amélie resolveu ajudá-lo? Escreve um trecho de uma obra sua numa parede da rua onde ele costumava passar todos os dias:
Feliz da vida por ter finalmente recebido um reforço positivo pelo seu trabalho, Hipolito continua o seu trajeto assobiando e motivado.




Finalmente, depois de todos estas experiências bem-sucedidas, Amélie sente-se hábil para ajudar uma pessoa mais íntima: o seu pai.
E a forma que encontrou para o fazer é hilariante. Como o seu pai não a ouve e não está sensível à sua própria solidão de viúvo, Amélie encontra uma forma criativa de lhe dizer: "Pai, vá viajar e aproveite a vida". Amélie providencia que um anão do jardim do pai cruze o mundo. Nos diferentes destinos da viagem do anão, alguém o fotografava num determinado ponto turístico e enviava cada uma dessas fotografias para o pai.




Injuriado com a felicidade do anão viajante, o pai de Amélie finalmente entende o conselho. Ou melhor, a operação estabelecedora (geradora de "motivação", que aumentou o reforço para viajar) foi forte demais: o pai pega nas malas e vai ele mesmo viajar, para aproveitar a vida, como o anão fez (um caso curioso de modulação!)
E, só no final do filme, é que Amélie, recebendo alguma ajuda de seus amigos, consegue ajudar uma última pessoa solitária a encontrar a felicidade: ela mesma!
Este belíssimo filme é sobre solidão (privação social e amorosa) e sobre como a solução está em intervir em contingências simples, nas "pequenas coisas da vida". Amélie descobre que já que o mundo está cheio de pessoas solitárias, basta dar uma ajudinha ("arranjar as contingências") para fazer com que a solidão desapareça, fazendo com que essas pessoas se liguem umas às outras e, assim, à vida!

Amigo Aprendiz

'Amigo aprendiz', uma das canções do último disco de Rodrigo Costa Félix, com música de Tiago Bettencourt e poema de Fernando Pessoa, foi selecionada pela revista norte-americana The Atlantic para integrar a lista das 12 baladas "épicas" para ouvir em 2012, sendo que a revista fez questão de não escolher nenhuma balada cantada em inglês.

Esta canção, integra o mais recente álbum do fadista, 'Fados de amor', editado em Maio passado pela Farol. O disco surgiu como o primeiro CD da história do fado em que a guitarra portuguesa é integralmente interpretada por uma mulher, neste caso a guitarrista Marta Pereira da Costa, mulher do cantor.

A revista norte-americana, publicação de referência de temas da atualidade política, económica e cultural, com sede em Washington, destaca a capacidade inovadora de Rodrigo Costa Félix de não se deixar amarrar à tradição fadista, cuja figura maior e mais amada é Amália Rodrigues, e destaca as suas suspensões, "na interpretação contida", "harmoniosamente apoiada pelos atentos acompanhantes".
Clique AQUI para aceder à lista da revista The Atlantic.


Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos,
Nem tão longe e nem tão perto,
Na medida mais precisa que eu puder.
Amar-te sem medida,
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade.
Sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar quando for hora de calar.
Sem calar quando for hora de falar.
Nem ausente nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.

É bonito ser amigo,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
E por isso, eu te suplico paciência
Vou encher esse teu rosto
De lembranças,
Dá-me tempo
De acertar nossas distâncias

 (Amigo Aprendiz – Fernando Pessoa)

Já falei sobre este poema AQUI

Frase do dia: "Mesmo na falta de sentido para este sentir. Eu sinto, sinto muito, sinto demais!" [14]


Verbo que me define? Diria que é o verbo SENTIR. Eu sinto, sinto muito, sinto demais! Tudo. Todos. 

Mesmo quando tento não me envolver. Mesmo quando tento me esconder. Mesmo quando tento não me mostrar. Mesmo quando tento disfarçar... Mesmo na falta de sentido para este sentir. Eu sinto, sinto muito, sinto demais! Tudo. Todos.

E é por isso que às vezes as coisas magoam tanto. E é por isso que as minhas tristezas são profundas. E é por isso que o pouco me diz tanto. E é por isso que as minhas alegrias são INTENSAS.

Não tenho solução. O meu coração será sempre a minha razão!