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Das páginas do meu diário [1]



(...) Choro com frequência, não controlo, não consigo controlar...Mas a verdade é que também não quero controlar...
(...) As manifestações de carinho e amizade ajudam-me… os amigos têm-se revelado verdadeiros amigos o que apazigua este vazio que sinto… e poder desabafar contigo ajuda-me.
(...) Sei que sou uma privilegiada enquanto filha porque lhe disse várias vezes o quanto a amava, porque a acompanhei até ao último minuto, por me ter dito várias vezes que se orgulhava de mim, por não ter ficado nenhum “se” entre nós… Contudo, a ferida é tão recente e a dor é tão forte que existem momentos em que penso que não serei capaz de superar, estou perdida, desorientada… A nossa cumplicidade era tanta que parecíamos duas pessoas numa só…era o meu porto seguro e eu o seu. Perdê-la foi sempre o meu maior medo...agora, já nada temo… Este é o meu estado de alma: triste, profundamente triste. Estou a tentar fazer o luto: assistir a tudo, mexer na roupa, ver fotografias, ler as cartas -  que sempre terminavam:“(...) Beijinho da mãe que te adora e que sempre estará contigo” -, … mas estes sentimentos de perda, dor, revolta…estão a consumir-me…já não me reconheço (...)

Sim, como se faz?

"Como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
Sim, Como se faz? Como se esquece?

Devagar…
É preciso aguentar. É preciso paciência.
A tristeza só há de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo.

A saudade é uma dor que pode passar (ou melhor, tornar-se mais serena) depois de devidamente doída, devidamente sentida. E o primeiro passo é aceitá-la.
É preciso aceitar esta dor que nos despedaça o coração. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução…

Dizem-nos para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos, mais tarde, de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado…"



Nada se esquece. O que é preciso é deixar correr o coração de lembrança em lembrança até ele se acalmar.
E, um dia, as lembranças deixam de nos magoar… Confortam-nos.

                                                                                  Adaptação de texto de Miguel Esteves Cardoso

Porque há dias assim...com SAUDADES.

Durante muito tempo pensei que ausência era falta.
Mas depois que partiste percebi que não existe falta na ausência...
Sim, estás ausente... e continuas a caminhar comigo.


Um dia tive um sonho. Sonhei que estava a andar na areia e passavam cenas da minha vida (…) e para trás ficavam sempre dois pares de pegadas (…) Sim, um meu e outro teu.
Reparei que nos momentos em que mais precisava (de partilhar, de carinho, de ti …) apenas existia um par de pegadas na areia.
Foi nessa altura que entristeci e perguntei: Porque me abandonaste?
E tu respondeste: A mãe ama-te, jamais te deixaria nas horas das tuas alegrias, da tua prova e sofrimento. Quando viste apenas um par de pegadas na areia, foi exatamente no momento em que te peguei ao colo e te carreguei.