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“LET TOYS BE TOYS - FOR GIRLS AND BOYS”

Brincar é crucial para o desenvolvimento de uma criança.
Nas brincadeiras, as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como: atenção, imitação, memória e imaginação. Amadurecem, igualmente, algumas capacidades de socialização por meio da intenção, da utilização e da experimentação de regras e papéis sociais.

Como disse Piaget, brincar é o trabalho de uma criança. E não há porque dar limites a isso.
Quando questionados, os pais dizem que não há qualquer problema no facto de os meninos e as meninas trocarem de papéis na hora da brincadeira. Pois…na teoria é fácil falar. Na prática, pais e mães compram brinquedos delicados e cor-de-rosa para as meninas, e carrinhos e kits de médicos para meninos. E atire a primeira pedra quem não mudou de assunto quando o filho mostrou interesse numa boneca ou a filha quis saber se podia ter um camião ou umas chuteiras…

É preciso considerar que, quando damos jogos de tabuleiro como xadrez ou damas só para meninos, estamos a excluir as meninas de aprenderem lições de lógica e raciocínio, por exemplo.
Além de precisarem de estímulos diferentes para aprender coisas diferentes, as crianças também precisam decidir por si o que é divertido. Mais, com essa liberdade de escolha, entre outros aspetos, podemos “trabalhar” na desmistificação de estereótipos sociais.

Partilho o vídeo publicitário da empresa de brinquedos Goldie Blox, que chamou a atenção com um roteiro que brinca com os estereótipos do mundo feminino e oferece uma linha de brinquedos para “futuras engenheiras”. Vale a pena visualizar.

By Liliana Fernandes

Defendo a irradicação dos trabalhos de casa, os famosos TPC


Para que fique tudo claro desde início, genericamente sou contra os trabalhos para casa. Quer dos vulgares TPC que muitas crianças e adolescentes têm de realizar diariamente, quer os trabalhos que muitos adultos levam sistematicamente para casa do seu emprego.

Centrando-me nos primeiros, a minha opinião alicerça-se em três importantes variáveis temporais: o tempo dedicado pela criança ou adolescente às tarefas escolares, o tempo dedicado pela criança ou adolescente a outras tarefas, o tempo de convívio no seio da família.

A resposta a perguntas como “TPC sim ou não?”; “Devem ser passados diariamente TPC às crianças e adolescentes?”, ou ainda “Quanto tempo diário as crianças e adolescentes devem dedicar aos TPC?” deve estar dependente da resposta a outras preguntas prévias como: “Quais os objetivos que se querem alcançar com os TPC?”, “Quantas horas diárias passa a criança ou o adolescente na escola ou a realizar tarefas escolares?” ou “Quais as atividades extracurriculares em que a criança ou adolescente está envolvido?”

Os TPC como ferramentas para alavancar as aprendizagens (como os economistas agora gostam de dizer) são algo pobres, como se obrigar as crianças e adolescentes a realizar mais tarefas escolares fosse a melhor solução para combater o insucesso. O facto das crianças e adolescentes passarem mais tempo em torno das tarefas escolares significa apenas e só que elas passam mais tempo em torno de tarefas e não que elas vão conseguir aprender com os TPC aquilo que não conseguiram aprender na sala de aula. Os TPC parecem-me razoáveis nas situações em que as crianças e adolescentes têm apenas metade do seu tempo ocupado na escola (sou de manhã ou só à tarde), em que a repetição dos exercícios escolares fora da sala de aula pode potenciar a aprendizagem. Nas outras situações os TPC soam muito a, por um lado, a chutar para fora da escola aquilo que deveria ser uma das mais importantes tarefas a realizar em âmbito escolar: o desenvolvimento e a consolidação das aprendizagens. Tanto mais quando se sabe que não é a ocupar as crianças com TPC que se faz com que elas passam a ter melhor desempenho escolar.

Se pensarmos que é na brincadeira que se desenvolvem muitas e importantes competências cognitivas e relacionais (e a brincar pode-se aprender muita coisa, como a importância das normas e regras sociais), será razoável pedir TPC diários a crianças de 6 ou 7 anos que passam 8 a 10 horas por dia em contexto escolar? Nessas circunstâncias, os TPC assemelham-se muito ao levar trabalho para casa por parte dos adultos: e tanto direito têm elas ao descanso e á brincadeira, como nós temos direito à vida própria.

É certo que a escola é uma coisa séria. Só que a brincadeira também o é. Encontrar um equilíbrio bem ajustado não é fácil. Mas também não é uma missão impossível, principalmente nesta época em que se encontraram formas de conseguir conciliar a brincadeira e o lúdico com a aprendizagem. Veja-se a “Rua Sésamo”, que em todo o mundo foi/é uma verdadeira escola encarregue das primeiras aprendizagens da leitura e da aritmética.

Curiosidade: os meninos e meninas finlandeses (que frequentam o sistema de ensino educativo que atualmente serve de exemplo para o resto do mundo pelos bons resultados) vêm a “Rua Sésamo” e outros programas do género (paradoxalmente – ou talvez não – as crianças na Finlândia só entram para a escola aos 7 anos e, quando entram, já sabem ler).

Para mim, e em relação aos TPC, a situação ideal era eles não existirem. Esta é a minha humilde opinião.

Não resisti...Vamos Ginasticar?!
“Vem ginasticar, ginasticar…
É bom ginasticar, vamos lá praticar
Dá mais força ao coração. Sim, sim…
Pois então, tens razão…”

Televisão e Violência


É mesmo verdade que a violência na televisão torna as crianças mais violentas e agressivas?
Há idades críticas especificamente propícias para a imitação de condutas agressivas através de programas violentos?
Terei de proibir televisão aos meus filhos para serem turbulentas e agressivas?


Os dados disponíveis revelam que as crianças que vêm programas violentos são as mais agressivas na escola.
Proibir programas violentos?
A partir dos dados disponíveis, houve muita gente que passou a considerar a violência na televisão a causa direta de muitas condutas agressivas nas crianças. Tudo leva a crer que tais respostas são demasiado simplistas.
Por exemplo: as pesquisas mostram também que os programas violentos têm grande influência nas crianças já agressivas, e que têm pouca influência nas crianças não agressivas. Mostram, pois, que há crianças mais vulneráveis do que outras aos efeitos da violência na televisão.

Por outras palavras, que interesse teria clamar contra a violência na televisão e proibir todos os programas violentos às crianças e, ao mesmo tempo, pouco ou nada fazer para afastar outras dimensões que levam ao aumento da agressividade na criança, em particular, e na comunidade, em geral?!
Aliás, a violência psicológica passa em abundância na televisão como em casa. Só que tal violência, menos perceptível mas de efeitos tão ou mais dramáticos que a violência física é menos notada.
De facto, seria bom que houvesse menos programas violentos na televisão e que as crianças não os vissem em demasia.

Sabe-se, que a idade entre os 7-11 anos é das mais críticas em relação aos efeitos nefastos da violência que passa na televisão sobre a aprendizagem de condutas  agressivas. Isso parece dever-se ao facto de as crianças dessa idade tomarem como real muita da violência simbólica que vêm na televisão. Mas a sugestão de não deixarmos as crianças verem toda a violência que passa na televisão seria incompleta se não fossemos alertados para outras realidades.

Castigo, agressão e televisão
Uma dessas realidades mostra que existe uma associação muito forte entre comportamento agressivo das crianças e rejeição e castigo por parte dos pais. Em palavras simples, se educa o seu filho de modo autoritário (não confundir com exigência) e não estabelece com ele relações de grande afeto, é provável que ele seja mais agressivo. Sendo mais agressivo, os programas mais violentos terão sobre ele efeitos mais nefastos e ele próprio tenderá a gostar mais de ver programas violentos. É uma espécie de circuito que começa e não mais termina…

Aproveitamento escolar, agressão e televisão
Outra realidade mostra que as crianças de baixo rendimento escolar gastam mais tempo a ver televisão. Ou seja, têm mais oportunidade de observar modelos violentos e aprender condutas agressivas. O que, de novo, as torna mais vulneráveis aos efeitos nocivos da violência na televisão. A ilação é fácil de tirar, embora mais difícil de pôr em prática. Se se estimular o aproveitamento escolar das nossas crianças, não só as tornamos menos dependentes da televisão, como as afastamos da televisão, como as afastamos, de modo pedagógico e científico, de modelos agressivos.

Rejeição, agressão e televisão
Outra realidade mostra ainda uma associação positiva entre comportamento agressivo na criança e rejeição por companheiros. E, tal como acontece com as realidades anteriores, também aqui se grea uma espiral bastante dramática. A criança rejeitada, porque não desfruta de relações agradáveis com os seus companheiros, tenderá a passar mais tempo em frente do televisor; tenderá a ver programas mais violentos; e tenderá a tornar-se mais agressiva. Ficando mais agressiva, terá mais dificuldades em se relacionar com os colegas. O que a leva a mais televisão, mais agressão e mais rejeição!...

Fazer da televisão o único ou o principal responsável pela violência é redutor, podendo mesmo ser injusto. Se é verdade que a televisão vomita violência, também é verdade que modela o bem, o belo e o verdadeiro. Por outras palavras, erramos o alvo se pensarmos que a erradicação da violência seria possível através da simples proibição de programas violentos na televisão ou da proibição de tais programas às crianças. Se queremos um mundo mais pacífico e menos violento temos de olhar para além da televisão…

FONTE:
ORLANDO, L. (1996). Educar Hoje Crianças para o Amanhã. Porto: Porto Editora.

"Há normas e normas"


As crianças sentem-se seguras quando lhes fixamos limites, mas, como diz Orlando Lourenço, “Há normas e normas, ou convicções e convicções!”

Não duvido que acha mal, horrível mesmo, que o seu filho bata nos colegas por tudo e por nada. Também não duvido que acha incorreto que o seu filho tire dinheiro da sua carteira e acuse, depois, outro irmão. Num caso como no outro, há poucas dúvidas de que se comportou mal, na medida em que prejudica o bem-estar dos outros, sem ter qualquer direito de fazê-lo. Os especialistas do desenvolvimento para a justiça falam em NORMAS MORAIS para estes casos.

Também imagino que não vê especial gravidade pelo facto de o seu filho se sentar para jantar com o boné na cabeça, ou entrar com ele pela aula dentro. Em ambos os casos, está a fazer apenas o que a família e a escola não acham muito “civilizado”, mas não imoral. De facto, há culturas em que, ao invés da nossa, seria pouco decente e civilizado descobrir a cabeça de tal ocasião. Ou seja, esse tipo de normas não interfere no bem-estar e dignidade de pais, professores, irmãos ou colegas, pretendendo apenas coordenar alguns aspetos da vida social. Por isso, os especialistas do desenvolvimento social chamam-lhes NORMAS CONVENCIONAIS ou de convenção.

Antecipo que reconhece que ninguém, mesmo que sejam pais ou professores, tem nada a ver com os colegas que a criança escolhe para amigos, que convida para a festa de anos, ou com o tipo de penteado e de camisa que gosta de usar. Os especialistas do desenvolvimento social falam aqui em comportamentos da esfera privada ou DOMÍNIO PESSOAL.
Isto é, há normas e normas! Do ponto de vista educativo e psicológico, é uma pessoa justa e competente se procura promover nos seus filhos:
  • Convicções fortes em relação a certo tipo de normas e princípios morais;
  • Muitas dúvidas e relativismo quanto às normas convencionais; e
  • Um sentido profundo de iniciativa e liberdade individual quanto ao domínio pessoal.

Os seus filhos ou alunos terão muita sorte em ter pais e professores deste género. Provavelmente, crescerão num contexto que os ajuda a chegar longe em termos de desenvolvimento pessoal e social.
Há pais e professores, contudo, que tendem a invadir a esfera do domínio pessoal da criança, pensando que são eles que lhes devem escolher os amigos, preferências e gostos. É muito bem possível que este tipo de pais e professores eduquem, sem querer, para o conformismo e obediência.

Os dados da psicologia do desenvolvimento mostram que a existência bem vincada de um domínio pessoal é indispensável para a criança desenvolver autoestima e sentido de poder sobre as coisas, sendo isto essencial, por sua vez,  para o seu desenvolvimento saudável.
De modo não surpreendente, as pessoas que mais se respeitam a si próprias, domínio pessoal, são também as que mais tendem a respeitar os outros, domínio moral.

ORLANDO, L. (1996). Educar Hoje Crianças para o Amanhã. Porto: Porto Editora.

“Só pode amar e amar-se quem foi amado”


“(…) Depois, toda ela se adoçou, maternalmente. E se aproximou do marido, acatando-o no peito. E sentiu que já não era apenas o espreitar da lágrima. O seu homem se desatava num pranto. Vendo-o assim, babado, e minguado, minha mãe entendia que o velho, seu velho homem, queria, afinal, ser sua única atenção.

Conduziu-o pela mão, minha mãe o fez entrar e lhe mostrou o neto já dormido. Pela primeira vez, meu pai contemplou o menino como se ele acabasse de nascer. Ou como se ambos fossem recém-nascidos. Com desajeitadas mãos, o velho Zedmundo levantou o bebé e o beijou longamente. Assim, demorou como se saboreasse o seu cheiro. Minha mãe corrigiu aquele excesso e fez com que o miúdo voltasse ao quente do colchão. Depois o meu pai se enroscou no desbotado sofá e minha mãe colocou-se por detrás dele a jeito de o embalar em seus braços até que ele adormecesse.

Na manhã seguinte, ainda cedo, encontrei os dois ainda dormidos: meu velho no sofá e, a seu lado, o adiado neto. Minha mãe já tinha saído. Dela restara um bilhete rabiscado por sua mão. Não resisti e espreitei o papel. Era um recado para meu pai. Assim:
“Meu Zedmundo: durma comprido. E trate desse menino, enquanto eu vou à cidade.”
Entre rabiscos, emendas e gatafunhos, o bilhete era mais de ser adivinhado que lido. Dizia que meu pai ainda estava em tempo de ser filho. Culpa era dela, que ela já te esquecido: afinal, meu pai nunca antes fora filho de ninguém. Por isso não sabia ser avô. Mas agora, ele podia, sem medo, voltar a ser seu filho.
“Seja meu filho, Zedmundo, me deixe ser sua mãe. E vai ver que esse nosso neto nos vai fazer sermos nós, menos sós, mais avós.”"
Mia Couto in Fio das Missangas/O Adiado Avô

Foto: Butterflies & Hurricanes
(uso desta foto não autorizado)

Tal como defende Bandura, a ideia que os indivíduos têm de si mesmos deriva da forma como são tratados pelos contextos e pelo ambiente social. E aqui os pais ocupam um lugar priveligiado, pela ligação específica que o bebé e a criança vão estabelecendo com eles.
A socialização é uma rua de dois sentidos. Quando Coimbra de Matos nos diz que "só pode amar e amar-se quem foi amado" - numa sequência natural que inicia no ser-se amado (pelos pais), que passa pela capacidade de se amar (a si mesmo) para finalizar na possibilidade de amar o outro - possui subjacente a convicção de que os pais (os bons pais - biológicos ou adotivos, acrescenta ele) desempenham um papel fundamental no crescimento saudável e harmonioso do bebé e da criança, um papel onde a sua capacidade de amar incondicionalmente e a não exigência de retribuição desse amor são essenciais para que o seu filho desenvolva uma boa estima de si.

As crianças “não são o melhor do mundo”, mas O MELHOR (ou o pior) de nós mesmos…

"Children see, children do."
Sobre a imitação...

Os teóricos da aprendizagem social vêm a aprendizagem por observação como um dos mecanismos mais poderosos da socialização.
A criança observa outra pessoa que serve de modelo e depois começa a imitar o que o modelo faz e, deste modo, aprende a fazer algo que não sabia fazer antes.

A imitação pode ocorrer mesmo sem o observador copiar as ações do modelo na altura em que as observa (aprendizagem sem realização) e mesmo sem receber uma recompensa nem ver o modelo a recebê-la (aprendizagem sem reforço). 

A imitação pode envolver uma resposta que já se conhece. Neste caso, o que se aprende com a observação dos outros é se a resposta deve ou não ser realizada.
Exemplo: uma visitante estrangeira é convidada para uma festa numa ilha do Pacífico. No fim da refeição, os seus anfitriões arrotam estrondosamente e depois olham para ela. Ela hesita, engole em seco e acaba por arrotar também. Obviamente, ela não aprendeu a arrotar observando os anfitriões. Mas aprendeu que era, de facto, exigível fazê-lo no momento.
Neste exemplo, uma resposta, previamente aprendida mas quase sempre inibida, é desinibida pela aprendizagem por observação.

Quando a criança imita um modelo adulto, não está especialmente interessada em ganhar doces ou receber elogios. Uma razão não menos importante para copiar os mais velhos é a de querer ser capaz de fazer algumas das muitas coisas de que os adultos todo-poderosos são capazes. Afinal, também quer ser todo-poderosa. Neste sentido, a imitação é a sua recompensa. 

Para além de a imitação de algo que o modelo faz depender, em parte, das consequências que pareçam ocorrer ao modelo, nunca esquecer...é mais provável que as crianças imitem pessoas de quem gostam, respeitam e consideram competentes...Assim sendo,

"Make your influence positive!"
As crianças não são o melhor do mundo, mas o melhor (ou pior) de nós mesmos...

Desenvolvimento Social [Apontamento 2]

Primeira Parte AQUI 
Breve Resumo: A criança desenvolve-se no seio de um contexto familiar e é influenciada pelas características das pessoas significativas do mesmo, sobretudo as características dos seus pais. Ou seja, a socialização da criança inicia-se com os primeiros laços que estabelece, a vinculação à sua mãe ou à pessoa que cuida dela. Assim sendo, vinculação é o termo científico para "relação" afetiva (que se estabelece entre a criança e o seu cuidador primário) .
A figura de vinculação fornece conforto e segurança, ao passo que o seu afastamento fornece angústia.
Separações longas podem ter efeitos graves...
Até que ponto a experiência precoce é crucial?
A ausência de vinculação
Em estudos realizados com crianças institucionalizadas, verificou-se que: os bebés institucionalizados apresentavam sérias alterações no desenvolvimento social. Alguns eram insaciáveis nas exigências de atenção e amor individual. Mas a maioria tomava a direção oposta e tornava-se extremamente apática nas reações às pessoas. Raramente tentavam aproximar-se dos adultos, quer para os abraçar e acariciar, quer para ficarem tranquilos, se estavam aflitos.

Porquê? Porque em situação de institucionalização há poucas trocas sociais, poucas falas, pouca brincadeira,

Parece que, muitas das referidas deficiências precoces persistem na vida futura. Alguns estudos demonstraram que, num razoável número de casos, embora de forma nenhuma em todos, há vários défices intelectuais, por exemplo na linguagem e no raciocínio abstrato, que persistem na adolescência na adolescência e depois dela. Há também vários efeitos a longo prazo na esfera social e emocional: maior agressividade, delinquência e indiferença aos outros.

ANULAÇÃO DO PASSADO 
Os primeiros anos são decisivos, no sentido de que certos padrões sociais têm muito mais probabilidades de serem adquiridos nessa altura, como a capacidade de formar vínculos com as outras pessoas. Estes primeiros vínculos são um pré-requisito provável para a formação de vínculos posteriores. A criança que nunca foi amada pelos pais intimidar-se-á com os seus pares, e o seu desenvolvimento social ulterior ficará obstruído.
Contudo, é possível ao ser humano adquirir os instrumentos sociais para lidar com a vida posterior que contornem os males da primeira infância. Pois ainda que o passado afete o presente, ele não o predetermina.

Em resumo, a forma mais fácil de chegar ao segundo andar de uma casa é através do primeiro. mas num momento de crise é sempre possível ir buscar uma escada, trepar e entrar por uma janela.

SUGESTÃO: Nell (1994)Género: Drama. Direção: Michael Apted. País de produção: Estados Unidos. Duração: 115 min


O filme conta a história de uma jovem que é criada pela sua mãe numa floresta isolada de qualquer tipo de civilização. Após a morte da mãe, Nell ficou sozinha no mundo. Quando o médico da cidade descobre a existência de uma "mulher selvagem" resolve estudar o comportamento de Nell, e fica surpreendido com o modo como ela consegue garantir a sua sobrevivência mesmo estando isolada de qualquer outro ser humano. Outro fator que chama a atenção do médico é a linguagem que Nell desenvolveu para se comunicar. Ele percebe que na verdade não se trata de um dialeto totalmente desconhecido, e sim de um tipo de inglês destorcido, provavelmente ensinado pela sua mãe incapacitada. Ao estudo do médico junta-se a psicóloga Olsen…

ALGUMAS QUESTÕES QUE PODEM DERIVAR DO FILME:

Qual a importância do contato social na infância? Já que as relações interpessoais assumem o caráter de fatores imprescindíveis ao desenvolvimento psicológico global…
Qual a importância da construção social do sujeito?
Como a personalidade é formada?
O que é inato, o que se aprende?

A linguagem é um signo mediador por excelência, pois carrega em si conceitos generalizados e elaborados pela cultura humana. Entende-se assim, que a relação do homem para com o mundo não é uma relação direta do homem com a realidade, mas é mediada por meios que se constituem nas ferramentas auxiliares da atividade humana.  A linguagem tem papel de destaque no processo do pensamento. Sermos humanos é mais do que pertencemos a uma espécie de seres com determinada biologia e estrutura corporal: depende da participação em contextos sociais e culturais particulares, onde aprendemos formas de ser e de nos comportamos, assim tornamo-nos humanos através da aprendizagem de formas partilhadas e reconhecíveis de ser e de nos comportarmos. Tudo isto, nos leva a concluir que o papel das interacções sociais é fundamental no desenvolvimento humano.

SUGESTÃO DE LEITURA: Acrianca que não queria falar. A autora, Torey Hayden, fala do livro AQUI

Contadora de histórias

Que delícia! Quando dei por mim, estava com um sorriso estampado no rosto e a desejar que cette petite fille não parasse de contar a história...



Uma das formas de aproximar a criança do livro e posteriormente do gosto pela leitura é por meio do contar histórias infantis. Há diferenças significativas entre crianças com e sem estímulo de leitura. Crianças que não estão em ambientes que criam condições para a leitura, só narram factos do quotidiano, possuem repertório linguístico pobre, reproduzindo apenas histórias mais conhecidas, empregam frases segmentadas e baixo nível de criação de histórias, enquanto crianças estimuladas a ler acrescentam factos novos às narrativas e apresentam repertório linguístico variado.

Como já referi em publicações anteriores, a importância da história infantil está relacionada com diversos fatores: 1) EDUCATIVO: todos nós guardamos na memória as histórias que ouvimos e cada uma delas pode servir como uma lição moral, uma advertência; 2) INSTRUTIVO: até a matemática, com os seus cálculos e as suas frações, pode ser ensinada e apresentada sobre a forma de história; 3) ENRIQUECE o vocabulário, estimula a inteligência e desenvolve o pensamento infantil, cria condições para a aquisição de conhecimentos gerais, ampliando a experiência da criança. Possibilita, também, a socialização, e permite o estabelecimento de associações e generalizações, por analogia, entre o que ouve e o que conhece no seu dia-a-dia. 

Aprender a brincar



Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia do ser em desenvolvimento. O facto da criança, desde muito cedo poder comunicar por meio de gestos, sons e, mais tarde, representar determinado papel numa brincadeira, faz com que ela desenvolva a sua imaginação. Nas brincadeiras, as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como: atenção, imitação, memória e imaginação. Amadurecem, igualmente, algumas capacidades de socialização por meio da intenção, da utilização e da experimentação de regras e papeis sociais.

A brincadeira é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não pode ser vista apenas como diversão. O desenvolvimento da dimensão lúdica facilita o desenvolvimento pessoal, social e cultural e contribui, ainda, para a saúde física e mental.

Podemos, então, afirmar que a brincadeira é um grande laboratório que merece atenção dos pais, pois, é através dela que ocorrem experiências inteligentes e reflexivas, praticadas com emoção, prazer e seriedade. Através das brincadeiras é que ocorre a descoberta de si mesmo e do outro.

Frase do Dia: "Uma criança que lê, será um adulto que pensa"

SUGESTÕES:
Para ver


Uma deliciosa aula de sensibilização ambiental para miúdos e graúdos.

Sabiamente, José Saramago finaliza a história com  as seguintes interrogações:
"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"

Para ler
Há algum tempo publiquei:

"Os contos infantis são a chave para a compreensão do mundo" 

Segundo Wolfgang Mieder, os contos explicitam verdades sobre o ser humano, o que os torna atemporais e independentes de universos culturais específicos. Neles estão representados os problemas arquetípicos do ser humano, mas através de uma linguagem poética e simbólica.
Daí ser tão importante na educação das nossas crianças favorecer o acesso aos contos infantis e auxilia-las na identificação dos sistemas de valores neles representados...  - Continua  AQUI


"Era uma vez, os heróis de contos infantis..."

Ler contos infantis durante a infância auxilia o desenvolvimento das crianças a todos os níveis. Esse ato, aparentemente tão simples, pode estimular o desenvolvimento psicológico, cultural e emocional. E, ao permitir que a criança desenvolva a imaginação, vai estimulando, igualmente, a criatividade.
Os contos infantis propiciam à criança uma forma lúdica de aprender. Contribuindo para a sua formação, onde valores e costumes são transmitidos.
O "Era uma vez" dos clássicos contos infantis possibilita a identificação das crianças com as personagens, onde medos, angústias e conflitos podem ser trabalhados... -  Continua AQUI

Desenvolvimento Social [Apontamento 1]

Estou a organizar informação sobre desenvolvimento social. Assim sendo, vou partilhando com vocês alguns apontamentos na esperança que, os mesmos, possam ser úteis.

PARTE 1 - IMPORTÂNCIA DE VÍNCULOS FORTES

A pergunta que toda a gente faz: As crianças e jovens estão cada vez mais “difíceis”..., há fórmulas mágicas para dar a volta à questão?






Gordon Neufeld (especialista mundial na área da psicologia e relações familiares) - …Quanto mais nos disserem o que devemos ou não fazer, mais perdemos o senso comum e a intuição natural. Quando as crianças estão adequadamente vinculadas a quem delas cuida isso acaba por trazer ao de cima o que de melhor crianças e adultos têm. Quando as coisas não funcionam, o que mais necessitamos é de refletir sobre a importância das relações afetivas que evite a batalha contra as síndromes de comportamento. Temos vindo a ser pais e professores desde há milhares de anos. É uma “dança”, não um conjunto de competências. Quando a relação é a correta, a dança é relativamente fácil. Se não for, nada do que façamos irá correr bem.





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Quero iniciar a abordagem deste processo com a seguinte conclusão:
A forma mais fácil de chegar ao segundo andar de uma casa é através do primeiro. Mas num momento de crise é sempre possível ir buscar uma escada, trepar e entrar por uma janela…
No final, penso que irão perceber esta conclusão!

VINCULAÇÃO

O desenvolvimento social inicia-se com o primeiro vínculo humano que é considerado, por vezes, como a base de todas as relações posteriores com os outros: a vinculação do bebé à pessoa que cuida dele.

O que é a vinculação?
Vínculo é a palavra científica para “relação” e fala da nossa necessidade preeminente de intimidade.
Procuramos proximidade e conexão de muitas maneiras: através de estar com, ser parecido com, fazer parte de, estar do mesmo lado de, ser importante para, através do amor, e através do sermos compreendidos.
Assim sendo, vinculação é uma relação afetiva que se estabelece entre a criança e o seu cuidador primário.

Durante os primeiros meses de vida, o mundo social do bebé está limitado a uma única pessoa, geralmente à mãe. Com o tempo os horizontes sociais tornam-se mais vastos, passando a incluir ambos os pais, o resto da família e depois os companheiros de cresce e da escola. Com o início da adolescência, os amigos do sexo oposto assumem cada vez maior importância, o indivíduo torna-se sexualmente ativo e em breve ele próprio torna-se pai iniciando novamente o ciclo reprodutivo. Mas a expansão do mundo social da criança vai mais longe. Já crescida, começa a compreender o sistema de regras sociais que a une não só à família mas também a um universo social mais vasto.

SEPARAÇÃO E PERDA
A figura de vinculação fornece conforto e segurança, ao passo que o seu afastamento desperta angústia.
Durante os primeiros meses de vida, o bebé aceitará um substituto, talvez porque ainda não exista uma conceção clara da mãe que a diferencie de todas as outras pessoas. Mas, a partir de certa altura, entre os seis e os oito meses de idade, o bebé começa a saber quem é a sua mãe. A partir de agora, chora e inquieta-se quando a vê partir.
Separações longas podem ter efeitos graves.
Para alguns autores, o desgosto experimentado por adultos com a morte de um ente querido é, em muitos sentidos, semelhante à ansiedade de separação da criança afastada da mãe.

AVALIAÇÃO DA VINCULAÇÃO
A reação à separação fornece um modo de avaliar o tipo de vinculação que um bebé estabeleceu com a mãe.
Um procedimento largamente utilizado é a chamada “situação estranha”, inventada por Mary Ainsworth e seus colegas, para crianças com cerca de um ano de idade.
A criança é primeiro introduzida numa sala desconhecida onde há muitos brinquedos, dando-se-lhe oportunidade para explorar e brincar, enquanto a mãe está presente. Passado algum tempo, entra um estranho, fala com a mãe e depois aproxima-se da criança. O passo seguinte é uma breve separação: a mãe sai da sala e deixa a criança sozinha com o estranho. Segue-se a reunião, a mãe volta e o estranho sai.

Qualidade da vinculação
Na situação estranha, um grupo é descrito como “firmemente vinculado”. Enquanto a mãe está presente, estas crianças exploram, brincam com os brinquedos e até se aproximam cautelosamente do estranho. Mostram alguma perturbação, quando a mãe sai, mas saúdam com grande entusiasmo o seu regresso. As restantes crianças revelam vários padrões de comportamento que Ainsworth e os seus colegas consideram sinais de “vinculação insegura”. Algumas parecem estar muito ansiosas: não exploram a sala mesmo na presença da mãe, ficam extremamente angustiadas e em pânico quando elas as deixam e reagem com ambivalência emocional no momento da reunião, correndo para elas para serem pegadas ao colo e lutando com raiva, depois, para voltarem ao chão. Outras mantêm-se distantes  e afastadas de início: manifestam pouca perturbação, quando a mãe a deixa, e ignoram-na quando volta.
Crianças, na “situação estranha”, classificadas como firmemente vinculadas, foram consideradas, aos três anos e meio, como mais extrovertidas, populares e bem adaptadas na creche.


[A vida emocional da criança não é exclusivamente dedicada à mãe. Mas a mãe parece ser mais importante, pelo menos em idades precoces.
Ou seja, os resultados sugerem que a vinculação ao pai é menos poderosa do que à mãe. O mais provável é que esta disparidade reflita o facto de, na grande maioria das crianças da nossa sociedade, a mãe ter a seu cargo a maior parte dos cuidados.]


(continua)