DISTÚRBIO BIPOLAR [1]

Forças contraditórias lutam dentro de ti,
umas impelem-te para a ação, outras para
o pensamento e a excessiva reflexão que te
faz cair num precipício chamado depressão.


Trata-se da doença da montanha-russa, cheia de altos e baixos. Lidar com um doente bipolar não é tarefa fácil, mas não é uma missão impossível. O importante é equilibrar os dois pólos numa balança com  conta, peso e medida.
O distúrbio bipolar, que afeta cerca de 150 mil portugueses (é verdade!) - a ONU indica que entre 1,3% e 1,6 % da população mundial sofre desta doença - , é caracterizada por dois pólos, um positivo e outro negativo, em que o indivíduo passa por altos e baixos, atravessando alternadamente períodos de euforia e períodos de profunda tristeza.

Nos períodos eufóricos, ou de mania, o indivíduo tem pensamentos como "Eu sou o melhor", e ideias megalómanas sobre a realidade. Nestas alturas, pode aventurar-se em novas ideias e em novos negócios, queimando rapidamente etapas para alcançar os seus objetivos. Este é um período de descontrolo total: a nível financeiro é possível que gaste muito mais do que aquele que tem disponível, sem se preocupar com isso. O descontrolo é de tal modo grande, que o indivíduo pode envolver-se no consumo de drogas e o recurso ao álcool é uma constante. Parece que não existe a necessidade de pôr travão aos gastos e ao consumo excessivo.

No outro pólo, da depressão, o sujeito é impelido para uma passividade marcada por períodos de intensa melancolia e tristeza profunda, em que surgem ideias de suicídio. Sentimentos como "Eu não valho nada" surgem constantemente no seu pensamento. E é permanente  um intenso sentimento de culpa pelas suas atividades durante o período de mania.

A DOENÇA DE ALGUNS DOS GRANDES GÉNIOS

Os efeitos desta doença são devastadores, cerca de 50% dos doentes bipolares não conseguem manter relacionamentos próximos. No entanto, alguns dos génios da Humanidade foram diagnosticados como bipolares. O doente bipolar possui geralmente uma inteligência acima da média e é muitas vezes genial na sua área de eleição. Por exemplo, atualmente pensa-se que Vincent Van Gogh, que cortou a própria orelha pois ouvia vozes, exteriorizou a sua patologia na arte. Contudo, o seu distúrbio estaria na ordem da psicose, em que as alucinações e os delírios eram um comportamento cristalizado.
Da nossa história pode-se categorizar Fernando Pessoa como bipolar, oscilando entre episódios maníacos e episódios depressivos, com os seus heterónimos Álvaro de Campos - caracterizado pela euforia, pela agitação frenética da cidade -, e Alberto Caeiro - poeta bucólico, do contacto com a natureza que remete para a melancolia. Outros poetas portugueses também sofreram de doença bipolar, como Mário de Sá Carneiro (que se suicidou em Paris no ano de 1917) ou Florbela Espanca, também com uma particular incidência para o pólo negativo, caracterizado pelo sofrimento ligado a uma depressão com instinto suicidário.

"Eu ...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada...a dolorida... 

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
--Florbela Espanca
Florbela, de Vicente Alves do Ó - Trailer do filme sobre Florbela Espanca
 (COM ESTREIA MARCADA PARA 8 MARÇO DE 2012)