CABELOS (DO NORMAL AO PATOLÓGICO)

Quem gosta de mexer no cabelo?! Assumo. Adoro colocar os dedos entre os cabelos e enrolá-los. Penso que é algo que me acompanha desde a infância, não estou bem certa.

No entanto, não sei se sabem, mas deste simples mexer e enrolar pode nascer/ter início uma perturbação. Perturbação essa que se caracteriza pela necessidade de arrancar fios de cabelo. É verdade. Sentir prazer em separar fio a fio, puxá-los e arrancá-los. 
Estou a falar-vos de uma perturbação designada de tricotilomania/ TTM (trhix em grego significa cabelo, etillein refere-se a arrancar).
As áreas mais comuns para puxar cabelo são o couro cabeludo, cílios e sobrancelhas, mas pode envolver o cabelo/pelo de qualquer parte do corpo.  Apesar de em crianças a tricotilomania ocorrer igualmente em meninos e meninas, em adultos é mais comum em mulheres do que em homens.
Alguns podem arrancar só fios que estão a nascer ou os mais curtos, os mais grossos, os longos, os com textura ou cor diferentes, o grosso ou o escuro. Alguns "arrancadores de cabelos" demonstram interesse no cabelo alisando-o, sentindo o fio na mão, correndo o fio entre os lábios, mordendo a raiz ou comendo o fio ou parte dele. 
Crianças com TTM manifestam frequentemente outros comportamentos impulsivos, como onicofagia (roer unha), arrancar a cutícula ou esfolar ferimentos (skin picking), contrair a face, chuchar o dedo polegar, bater no rosto, mastigar ou morder a língua, bruxismo (ranger os dentes), beliscar, morder ou torcer os lábios, entre outros.
Episódios de arrancar o cabelo podem ocorrer em qualquer lugar e durar minutos ou horas. Em crianças com TTM pode ser passageira, episódica ou contínua, e podem durar semanas ou meses até interromper o comportamento, levando a acreditar que está completamente livre, mas inesperadamente ter um súbito e inexplicado ressurgimento da TTM. Como qualquer transtorno, há graus de severidade. Para alguns a perda pode ser mínima; para outros, o dano pode ser extenso, até mesmo chegar à calvície total.

A tensão interna causada por medos, inibições sociais, dificuldades de expressão de emoções e estados depressivos faz com que os sintomas sejam mantidos. E, frequentemente, a esses motivos acrescenta-se a força do hábito: arrancar cabelos torna-se um ritual diário, por exemplo, ao conduzir, ler ou telefonar, que ocorre de forma inconsciente e automática, sem um desencadeador concreto. Além desses fatores psicossociais, causas biológicas, como o genótipo, por exemplo, parecem desempenhar um papel importante: estudos mostram que o transtorno surge com frequência de 5% a 8% acima da média se outro membro da família já sofre do mesmo problema. O quadro, no entanto, não pode ser atribuído apenas à herança genética; também pode ser explicado como comportamento aprendido.
A tricotilomania é muito mais que uma 'mania' de arrancar os fios de cabelo. É um distúrbio sério que vem acompanhado de outros problemas e merece muita atenção e que pode trazer danos irreversíveis ou de difícil tratamento.


By Liliana Fernandes
(Psicóloga)

 Fotografia| Butterflies & Hurricanes