Saudade...Maior que o corpo que a envolve, maior que a alma que a embala.



Há 3 anos perdi uma pessoa muito especial, que amava (amo) profundamente. 
Com a minha dor, aprendi que se nos negarmos a fazer o luto sofremos ainda mais ... porque nos agarramos a uma situação que não existe mais e por isso “ficamos” impedidos de reconstruir a vida. Sim, porque a perda é como um limite entre a vida que possuíamos antes e uma nova, diferente, sem o nosso objeto de amor perdido.

E como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? Sim, como se faz?

"É preciso aguentar. É preciso paciência. A tristeza só há de passar entristecendo-se. Quem procura evitar o luto prolonga-o no tempo. Quanto mais conseguimos fugir, mais temos, mais tarde, de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado…"

O processo de luto não se trata de um único sentimento, mas de um conjunto de sentimentos que necessitam de algum tempo para serem resolvidos e que não devem ser apressados. Apesar de sermos todos diferentes, a forma como todos nós experienciamos o luto é muito semelhante.

AS FASES DO PROCESSO
(Fonte: Aconselhamento Psicológico - Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa)

Torpor

Nas horas e dias seguintes à morte desse outro importante, a maioria das pessoas passa por uma fase de descrença, ficando totalmente "atordoadas", como se não pudessem acreditar no acontecido. Mesmo quando a morte era esperada, este sentimento pode surgir. Este sentimento de torpor ou dormência emocional pode ajudar a levar a cabo todos aqueles procedimentos burocráticos inerentes a este processo, mas pode tornar-se num problema se continuar a subsistir. Ver o corpo da pessoa falecida pode, para alguns, ser um modo importante de começar a ultrapassar tudo isto. Da mesma forma, para algumas pessoas, o velório e o enterro podem ser situações onde a realidade começa a ser encarada. Apesar de ser difícil lidar com estas situações, o facto é que elas constituem um modo de dizer adeus àqueles que amamos. Na altura, estes acontecimentos podem parecer demasiado dolorosos para que sejam vividos, mas o facto é que fugir aos mesmos pode levar a um arrependimento tardio.

Agitação, Revolta, Culpa

Depois da fase de "torpor", poderá surgir um período de grande agitação, ansiedade e ânsia pelo que foi perdido. Surge o sentimento de querer encontrar essa pessoa seja de que maneira for, mesmo que tal seja impossível. Por isto, a pessoa começa a não conseguir relaxar ou concentrar-se e o sono pode ser perturbado.
É o início do luto, apego ao que se perdeu e uma tentativa de manter consigo, algumas vezes chega até a ver ou ouvir a pessoa perdida. Aqui muitas coisas perdem o sentido, e até as tarefas mais simples são difíceis demais de serem realizadas. É a fase de maior sofrimento.
Com muita frequência, a pessoa em luto sente-se muito zangada e revoltada - contra médicos e enfermeiros que não conseguiram impedir a morte que agora lhe pesa, contra os amigos e familiares que nunca deram o seu máximo ou mesmo contra a pessoa que perdeu e assim a deixou.
Outro sentimento comum é o sentimento de culpa. Nesta altura, começam a pensar em tudo aquilo que podiam ter feito ou dito e que já não tem retorno ou mesmo naquilo que podiam ter feito para impedir essa morte. Naturalmente que a morte é geralmente um acontecimento que está para além do controlo seja de quem for e a pessoa em luto deve ser recordada disto mesmo. A culpa também pode surgir depois de se sentir alívio pela morte de alguém que nos era muito querido mas que sabíamos estar a sofrer. Este sentimento é normal, compreensível e muito comum.

Tristeza, depressão, retiro, silêncio

O estado de agitação referido atrás é geralmente mais forte nas duas semanas que se seguem à morte do ente querido, mas segue-se rapidamente de períodos de grande tristeza e depressão, retiro e silêncio. Esta mudança súbita de emoções pode deixar amigos e familiares confusos, mas faz parte do processo natural de luto.
Apesar da agitação começar a cessar, os períodos de depressão tornam-se mais frequentes e atingem o seu máximo passadas quatro a seis semanas do sucedido. Crises de choro e angústia intensa podem surgir a qualquer momento, sendo habitualmente despoletadas por pessoas, sítios ou acontecimentos que fazem lembrar quem se perdeu. Algumas pessoas podem não conseguir perceber estas crises ou ficar sem saber o que fazer quando isto sucede. Poderá haver uma tendência da parte da pessoa em luto para evitar as outras pessoas mas isto pode trazer problemas futuros e, por isso, será melhor que volte à sua "vida normal" o mais rapidamente possível. Durante este período, pode parecer estranho aos outros que a pessoa em luto passe muito tempo sentada, sem fazer nada, mas o facto é que ela estará a pensar em quem perdeu, recordando constantemente os bons e os maus períodos que passaram juntos. Esta é uma fase silenciosa mas essencial à resolução do luto.

O sentimento de perda desaparece?

À medida que o tempo passa, a angústia intensa resultante do luto começa a desaparecer. A depressão atenua-se e será possível finalmente começar a pensar noutros assuntos e até em projetos para o futuro. No entanto, o sentimento de perda nunca desaparecerá por completo. Depois de algum tempo, deve ser possível sentir-se de novo "completo", apesar de faltar sempre uma parte de si que nunca será substituída.


Ainda hoje, a saudade “assalta-me” e dói. E é uma saudade maior que o corpo que a envolve, maior que a alma que a embala…Mas não me obrigo a esquecer, até porque nada se esquece… Deixo é o meu "coração correr de lembrança em lembrança" até ele se acalmar...